De Governador Valadares e Criciúma para Boston botas de trabalho Timberland para homens

Débats | 2007
Migrações, migraciones. Dossiê coordenado por Mônica Raisa Schpun
Glaucia de Oliveira Assis

De Governador Valadares e Criciúma para Boston

Os novos emigrantes brasileiros rumo aos EUA
[12/03/2007]
Résumé | Index | Plan | Notes de la rédaction | Texte | Bibliographie | Notes | Citation | Auteur

Résumés

English Português

The recent emigration of Brazilian people, in the late twentieth century, has placed Brazil in the new flow of worldwide population. Through the analysis of different points of departure, this paper intends to demonstrate that the migratory process does not only result from a rational choice, but also social networks (kinship and friendship) in which men and women are placed, contributing to new arrangements of family and gender relationships. The objective is to analyze the aspect of the social networks of the new emigrants coming from Criciúma and Governador Valadares and heading to Boston in the United States, showing how complex friendships, and economic and family relationships have been built up between these places. Following the trajectory of the emigrants, the work discusses data from fieldwork in Criciúma (SC) and in the Boston area, in the United States. The data, emerged from the interviews and participant observation, has shown that women do not just wait in their homeland for their husbands or children to return, but have an integral participation in the process and helping to form the migration networks. The data also made evident other points of migration besides Governador Valadares (MG), suggesting that social networks of the Brazilian migration have matured.

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Entrées d’index

Mots clés :

emigrantes brasileiros, gênero

Keywords :

gender, Brazilian emigrants, social networks

Géographique :

Brasil, Estados Unidos

Chronologique :

Século XX

Palavras Chaves :

redes sociais
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Plan

A pesquisa de campo - percorrendo a trajetória dos emigrantes
Como Criciúma se torna um ponto de partida para emigração
Os laços entre os EUA e o Brasil : as redes sociais dos migrantes criciumenses
Considerações finais
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Notes de la rédaction

Este artigo é uma versão modificada do capítulo IV de minha tese de doutorado (Assis 2004) e traz algumas reflexões de uma pesquisa em andamento (Assis 2006) que procura analisar as redes sociais nas duas cidades brasileiras que tem construído conexões com os EUA e out wejbetlz. ティンバーランドメンズシューズros países europeus : Governador Valadares (Minas Gerais - MG) e Criciúma (Santa Catarina - SC).

Texte intégral

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« Iracema voou para a América.

Leva roupa de lá e anda lépida

Vê um filme de quando em vez,

lava chão numa casa de chá

(...)

Não dá mole para a polícia

se puder vai ficando por lá,

tem saudades do Ceará,

mas não muita

(...)

Um dia dá a louca, me liga a cobrar.

Iracema da América »1

1Assim como a Iracema da música de Chico, nas últimas décadas do século xx, vários brasileiros voaram para a « América ». Esse novo movimento da população que, na década de 1990, consolidou uma migração para os Estados Unidos, Europa e Japão, sugere uma nova imagem para o país que até o início da década de 1980 imaginava-se apenas como um país de imigrantes.

2O fluxo de brasileiros para o exterior tornou-se uma questão relevante, na medida em que o que era um movimento esporádico para o estrangeiro nos anos 70 transformou-se em um fluxo migratório demograficamente significativo. É importante destacar ainda que ocorreu no mesmo período uma nova corrente migratória para o Brasil. Esses dois movimentos de e/imigração colocaram o país, no final do século xx, nos novos fluxos internacionais de mão-de-obra.

3Os novos movimentos da população mundial, que iniciaram no final dos anos 50, caracterizam-se pela maior diversidade étnica, de classe e de gênero, bem como pelas múltiplas relações que se estabelecem entre a sociedade de destino e de origem dos fluxos. Dessa forma, não são apenas os europeus brancos partindo da Europa para « Fazer a América » (cerca de 90% dos fluxos do século xix), mas também trabalhadores imigrantes não-brancos partindo dos países periféricos e dirigindo-se para os Estados Unidos, Canadá e países da Europa (Portes, 1990).

4Outra característica desses movimentos é o aumento da participação das mulheres. Morokvasic (1984), num artigo que abre uma coletânea que discute gênero e migração, afirma que « Os Pássaros de Passagem também são mulheres », sugerindo que a participação das mulheres nas migrações internacionais tem sido negligenciada por pesquisadores e formuladores de políticas públicas, ou que estas têm sido representadas de maneira estereotipada como « dependentes passivas ».

5Assim, embora muitas vezes os dados sobre os contingentes de mulheres aparecessem nos estudos, suas experiências, vivências, o trabalho, ficavam encobertos na categoria migrante, considerada gender-blind2. De fato, até recentemente, a migração internacional era majoritariamente tratada como um fenômeno que envolvia particularmente os homens. Essa maior visibilidade numérica das mulheres, contribuiu para questionar sua invisibilidade enquanto sujeito nos movimentos populacionais e, a partir das críticas das teóricas feministas, estudos recentes buscam compreender a articulação relações de gênero e migração.

6No caso da emigração de brasileiros para os Estados Unidos, as pesquisas começaram seguindo o percurso dos próprios fluxos migratórios. Na tentativa de responder a essas questões, as primeiras pesquisas traçaram um perfil da população e apontaram para a cidade de Governador Valadares (MG) como ponto de partida de emigrantes para a região de Boston, nos Estados Unidos.

7Ao longo dos anos 90, conforme demonstram os trabalhos de Martes (1999), Ribeiro (1999), Sales (1999a), Reis e Sales (1999), o fluxo de brasileiros para os Estados Unidos manteve-se contínuo, ao mesmo tempo em que se diversificava a população, tornando mais complexas as características da população, bem como revelando outros pontos de partida para a emigração. Essas pesquisas ainda apontam para a inserção de homens e mulheres no mercado de maneira diferenciada, pois as mulheres « dominam » a área do serviço de faxina na região de Boston (Martes 1999, Fleischer 2002) e também começam a problematizar as mudanças nas relações familiares e de gênero (Assis 2000, DeBiaggi 2002, Fusco 2001).

8Portanto, o fluxo brasileiro é constituído por uma diversidade étnica, de classe e de gênero que o termo migrante brasileiro muitas vezes encobriu. Os estudos recentes e a música de Chico, que de maneira tão sensível nos revela que as mulheres também partem, têm buscado olhar para homens e mulheres emigrantes e as múltiplas relações estabelecidas entre a sociedade de origem e destino. Iracema é uma mulher que emigra para tentar a vida na « América », se insere num trabalho que é comum a outras mulheres imigrantes – a faxina e não dá mole para a polícia, pois não tem papel - é indocumentada. Essa experiência comum às mulheres criciumenses e valadarenses, nos revela que quando as mulheres partem se inserem num mercado que está segmentado etnicamente e também por atributos de gênero.

9« Um migrante traz o outro », disse-me uma emigrante de Criciúma. Assim, ao compararmos as trajetórias dos migrantes criciumenses com a de outros imigrantes nos Estados Unidos, percebemos que nesse caso a consolidação de um fluxo contínuo para os Estados Unidos, também está diretamente relacionada à construção e à consolidação de redes migratórias.

10Quando um migrante traz um outro, redes de amizade e parentesco que já pré-existentes ao processo migratório são acionadas e contribuem para a reunificação familiar e para a ampliação do tempo de permanência dos imigrantes. Portanto, assim como aconteceu com outros fluxos de imigrantes salvadorenhos, mexicanos ou japoneses para os Estados Unidos, os brasileiros foram estabelecendo-se e trazendo seus filhos, primos, sobrinhos, amigos. Dessa forma, as redes familiares foram construídas entre os dois lugares e mudam a expectativa temporal dos imigrantes.

11Neste artigo pretendo centrar a análise na construção e na consolidação das redes sociais dos emigrantes criciumenses. No entanto, essa análise centrada nas redes não significa desconsiderar os fatores estruturais que motivam a migração, mas pretendo ressaltar as múltiplas relações construídas entre os dois lugares ao longo desse movimento. Procuro demonstrar ainda a ampliação do fenômeno migratório brasileiro para outros pontos de partida, além de Governador Valadares, cidade conhecida nacionalmente por se um ponto de partida para a migração internacional.

A pesquisa de campo - percorrendo a trajetória dos emigrantes

12O trabalho de campo seguiu a trajetória dos emigrantes e a pesquisa foi realizada nos dois lugares : em Criciúma (SC) e na região de Boston (MA). O campo foi multisituado, o que fez com que os deslocamentos fossem constantes, na tentativa de acompanhar as redes construídas pelos migrantes em sua vida cotidiana nos Estados Unidos. Os mapas de metrô e da grande área de Boston estavam sempre junto ao diário de campo e foram fundamentais numa pesquisa na qual tive que cruzar várias cidades. A pesquisa envolveu participação no cotidiano dos imigrantes na região de Boston, bem como entrevistas semi-estruturadas com emigrantes e seus familiares visando reconstruir essa vida estruturada entre os dois lugares.

13Ao selecionar a cidade de Criciúma para a realização da pesquisa, possuía algumas informações preliminares que indicavam que a cidade tinha um movimento significativo de emigração para os Estados Unidos. No entanto, sendo um movimento recente, não há dados sobre a população migrante. Além disso, o fato de ser um movimento de trabalhadores migrantes, em sua maioria indocumentados, torna difícil também a quantificação também nos países de destino.

14Nos jornais da cidade, e mesmo na imprensa regional e nacional (Revista Veja, 1999), as notícias jogam os números para cima, apresentando estimativas que sugerem que 20.000 criciumenses haviam deixado à cidade.3 Na falta de outro dado, as pessoas reproduzem a informação sem questioná-la, apenas dizendo « todo dia tem gente partindo », ou « todo mundo tem um parente ou conhecido lá ».

15Nesse sentido, tornou-se importante realizar um levantamento quantitativo que fornecesse um perfil da população emigrante e dos domicílios de onde partiram (bem como da primeira viagem, da experiência migratória como um todo) e apontasse para a configuração das redes sociais. Esse levantamento foi possível através do projeto de pesquisa « As redes sociais nas migrações internacionais : os migrantes brasileiros para os Estados Unidos e Japão »4. Para os objetivos desse artigo apresentarei apenas os dados relativos à Criciúma e trazer alguns dados para pensarmos o fluxo de valadarenses.

16A pesquisa de campo, realizada na zona urbana do município de Criciúma, foi uma amostragem aleatória por conglomerados simples. Esse processo permite inferir os resultados obtidos à população total, uma vez que todas as combinações de n unidades entre os N indivíduos da população têm a mesma probabilidade de pertencer à amostra, com erro e intervalo de confiança controlados.

17A coleta de dados do survey realizou-se em duas etapas. A primeira etapa ocorreu em abril de 2001, quando foram aplicados 2.695 questionários. A cidade foi dividida segundo os setores censitários5, e a pesquisa limitou-se ao perímetro urbano da cidade.

18Ao final da primeira etapa, foram aplicados 2.695 questionários, o que representou 10.616 pessoas e foram localizados 227 domicílios onde pelos menos um integrante tivesse experiência migratória internacional. Isso significa que 8,42% dos domicílios em Criciúma têm pelo menos um integrante com experiência migratória internacional. Como havia domicílios com mais de um migrante, foram contabilizados 343 migrantes. Como esse número era inferior ao que se esperava, uma vez que o objetivo era encontrar um mínimo de 400 indivíduos com experiência migratória internacional, ampliou-se a margem de erro da pesquisa de 5% para 5,3% (Sales et al, 2002).

19Dessa forma, podemos afirmar que 3,23% da população da sede municipal de Criciúma são migrantes internacionais. Esse número é muito inferior ao encontrado para a sede municipal de Governador Valadares, cuja população com experiência migratória internacional perfaz 6,7% da população total (Fusco, 2001).

20A segunda etapa do survey realizou-se de maio a junho de 2001. Essa etapa da ocorreu apenas nos domicílios onde foram localizados emigrantes internacionais. No questionário completo consta um perfil sociodemográfico das famílias dos emigrantes e um histórico migratório, com as características da primeira viagem, bem como da experiência migratória como um todo, possibilitando mapear as redes que se estabelecem entre os emigrantes e suas famílias no Brasil.

21A partir dos dados coletados na pesquisa, tornou-se possível traçar um perfil sócio-demográfico da população migrante com dados como idade, sexo, escolaridade, condição de presença de todos os integrantes do domicílio. Também obtivemos um histórico migratório, com as características da primeira viagem e da experiência migratória como um todo e demonstraram que as redes se configuram por caminhos diversos para homens e mulheres, o que indica a relevância que perceber a migração como perpassada por gênero.

Como Criciúma se torna um ponto de partida para emigração

22Criciúma, assim como Governador Valadares (MG), é uma cidade de importância na econômica para a região sul. A região que hoje compreende a cidade de Criciúma está localizada ao sul do estado de Santa Catarina e distante de Florianópolis 190 Km (via BR 101). No final do século XIX, a região sul do estado de Santa Catarina constituiu-se num encontro de etnias das quais a italiana representa uma parcela significativa. A cidade de Criciúma foi fundada em 1880, por um contingente de 22 famílias de imigrantes italianos, mais tarde vieram os alemães e poloneses. No início do século XX, com a descoberta do carvão, outros contingentes migratórios chegam à região vindos de outras cidades da região, são em sua maioria negros e portugueses.

23Os imigrantes, que chegaram no final do século XIX, vieram através de incentivos do governo brasileiro que se utilizavam de companhias de migração para trazer os imigrantes (Baldin 1987, Arns 1985, Alvim 1999). Eram homens e mulheres que migravam em famílias. As mulheres não migravam sozinhas. Em sua maioria eram pequenos agricultores que vieram em busca de um pedaço de terra para garantir melhores condições de vida para seus filhos.

24Nos relatos sobre a fundação da cidade destaca-se a imagem do imigrante pioneiro e da migração familiar. É importante observar que os relatos sobre a história da cidade enfatizam a imagem heróica do pioneiro. Os relatos enfatizam como os imigrantes deixaram a Itália, um país em crise após a unificação, e migraram para o Brasil em busca de terra e melhores condições de vida. O sucesso migratório é apresentado como resultado da coragem e do empenho dos imigrantes, pois eram colonos sem terra na Itália, tornaram-se proprietários de pequenos lotes de terra no Brasil e prosperaram.

25Passados 120 anos que os imigrantes chegaram à cidade, na cidade os descendentes dos imigrantes iniciaram um novo movimento, um caminho inverso, conforme denominou Savoldi (1998) ao se referir ao movimento de retorno dos descendentes de imigrantes italianos para a terra de seus tataravôs.

26No final do século XX, Criciúma tornou-se um ponto de partida de emigrantes para a Europa e para os Estados Unidos. Embora grande parte desses emigrantes informe que tem ascendência italiana, o movimento de criciumenses, assim como os migrantes valadarenses, dirige-se majoritariamente para os EUA nas regiões da grande Boston (MA), concentrando-se nas cidades de Lowell, Sommerville e Everett e para algumas cidades da Itália.

27Segundo os moradores da cidade, o movimento de emigração estaria relacionado com a crise do setor carbonífero (Teixeira 1996), o qual, até início dos anos 90, constituía-se na principal atividade econômica da cidade.

28Em meados da década de 1980, o setor carbonífero apresentou os primeiros sinais de uma crise, a qual se agravaria na década de 1990 com o governo Collor (1990-1992). Segundo Teixeira (1996) e Carola (2001), a crise ocorreu por um conjunto de fatores, como a queda da produção, a retirada dos subsídios por parte do governo e o fim do protecionismo estatal e a concorrência internacional, o que teria reduzido o mercado em mais de 30 %, causando, assim, uma alta taxa de desemprego na região.

29A crise econômica atingiu não apenas o setor carbonífero, mas também os setores da cerâmica que se desenvolveram na região. Em 1990, a recessão enfrentada pelo setor cerâmico foi tão intensa que, das treze fábricas de cerâmica existentes na região, nove interromperam suas atividades, ocasionando um desemprego ainda maior na região (Teixeira, 1996, p. 71).

30A crise econômica enfrentada pela cidade, iniciada no final da década 80 e agravada na década de 90, aponta para uma das razões que tornaram a cidade ponto de partida de inúmeros emigrantes em busca de trabalho nos Estados Unidos ou na Itália, embora não possamos reduzir a migração às motivações econômicas.

31Como demonstram os relatos dos emigrantes, a emigração para a Itália e para os Estados Unidos também está associada ao imaginário presente na cidade, o qual constrói uma conexão entre os imigrantes do passado e os emigrantes do presente, mas principalmente ao desenvolvimento e ao amadurecimento de redes sociais ao longo do processo migratório.

32O período que compreende de 1970 até 1989 corresponde a apenas 5% do total das viagens dos criciumenses em direção aos Estados Unidos ou à Europa. Foi na virada dos anos 90 que eles começaram a voar em direção ao exterior, ocorrendo um crescimento contínuo do número de primeira viagem nos anos de 1993 (com 4,9%) e 1994 (com 6,0%) do total das viagens. Esses dados foram os primeiros indicativos de que a migração esporádica estava tornando-se um movimento contínuo de migrantes.

33Esse período corresponde exatamente ao que é conhecido na cidade como a « crise do setor carbonífero », período em que o setor perdeu os subsídios governamentais e enfrentou a concorrência com o carvão mais barato e de melhor qualidade vindo do exterior. Ao analisarmos o período de 1998 a 2000, percebe-se que 48,4% do total realizaram sua primeira viagem nesse período, assim distribuído : 12,5% em 1998, 17,2% em 1999 e 18,7% em 2000.

34Assim, diferentemente dos emigrantes de Governador Valadares, que realizaram 40,8% das primeiras viagens nos períodos de 1987 a 1989 (Fusco, 2001), poderíamos dizer que o « triênio da desilusão »6, na região de Criciúma, ocorreu 10 anos depois. Como os dados de 2001 referem-se apenas ao primeiro semestre, não representam o ano, mas indicam a tendência ascendente da emigração na cidade, pois sendo computados apenas o período de janeiro a julho encontram-se 13,4% do total das viagens.

35O crescimento do movimento migratório está associado também à conjuntura nacional (crise do câmbio, desvalorização do real em relação ao dólar, desemprego) e ainda à crise enfrentada pelo setor cerâmico, indústria muito importante para a economia local (informações da Prefeitura Municipal de Criciúma). Por outro lado, podemos também atribuir esse crescimento ao amadurecimento das redes sociais, nas quais homens e mulheres migrantes estão inseridos em diferentes contextos.

Os laços entre os EUA e o Brasil : as redes sociais dos migrantes criciumenses

36Os domicílios dos quais partiram os emigrantes e revelam que os migrantes partem de domicílios constituídos por arranjos familiares que comportam pai, mãe, filhos e outros parentes, que são 12% dos integrantes dos domicílios. Também revela que os migrantes partem de domicílios com índices de escolaridade um pouco melhores que a média da cidade. Demonstram ainda que há 18,2% de chefes de família ausentes no exterior. Este último dado, quando analisado considerando o sexo do chefe de domicílio, indica que, embora predominem os homens considerados chefes, há um número expressivo de mulheres (30,6%) nesta condição o que pode nos dizer um pouco sobre como e quando homens e mulheres migram.

37Em entrevistas com famílias de descendentes de imigrantes constatamos que os emigrantes são em geral jovens. Os dados demonstram que a população de emigrantes é jovem, no entanto, há uma distribuição diferenciada entre homens e mulheres migrantes por grupo de idade.

38No grupo de idade onde se concentra a maior porcentagem de migrantes, a faixa de 25-29 anos, onde situam-se 19,4% dos migrantes, encontramos 19,1% de homens e 20,1% de mulheres. Em seguida encontramos, na faixa etária de 20-24 anos um total de 17,8% dos migrantes assim distribuídos : 16,5% são homens e 20,1% são mulheres. Os emigrantes constroem posicionamentos diferentes sobre as vantagens e desvantagens de ir para um lugar ou outro. Os EUA parecem emergir como lugar de mais vantagens financeiras, enquanto que a Itália ofereceria o encontro com suas raízes e maiores garantias sociais pela possibilidade de trabalharem como cidadãos e conseguirem inclusive uma aposentadoria. Ao longo da pesquisa de campo pude constatar que o destino preferido pelos que desejam migrar é os EUA. Como podemos ver no gráfico 1.

Gráfico1

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Fonte : As Redes Sociais nas migrações internacionais os migrantes brasileiros para os EUA e Japão, 2001

39O país de destino dos emigrantes de Criciúma, assim como outros emigrantes brasileiros, é os Estados Unidos para onde migram 60,2% dos homens e 58,3% das mulheres para « fazer a América ». Para a Itália partem 11,7% dos homens e 18,1% das mulheres, seguido de Portugal com 11,7% para os homens e 10,7% para as mulheres.

40Este dado sugere que embora nas associações italianas exista um discurso de valorização da identidade italiana, da busca da dupla cidadania, das oportunidades de trabalho na Europa, os criciumenses escolhem emigrar para os EUA. Esta seletividade do lugar de destino sugere que nos EUA os migrantes encontram redes estejam mais consolidadas o que atenua os riscos do empreendimento migratório para este país.

Gráfico 02

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Fonte : As Redes Sociais nas migrações internacionais os migrantes brasileiros para os EUA e Japão, 2001

41Quando partem os emigrantes criciumenses em sua maioria, 58,8% viajam com um conhecido. Se analisarmos segundo o sexo, veremos que os homens viajam mais sozinhos 43%, do que as mulheres com 38,2%. Isto significa que em 61,8% dos casos as mulheres viajaram com amigos, parentes ou namorados contra 57% dos homens. No gráfico seguinte veremos com quem o migrante viajou e qual a relação e parentesco com o mesmo.

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Fonte : As Redes Sociais nas migrações internacionais os migrantes brasileiros para os EUA e Japão, 2001

42Quando partem para realizar o projeto de migrar homens e mulheres levam diferentes integrantes da família, como se pode observar no gráfico 3. Os homens em sua maioria viajam com o pai (19,6%), em seguida a mãe (17,5%). A esposa é a terceira opção de acompanhante (15,4%) e os irmãos com 9,3%. Já as mulheres viajam com os maridos em primeiro lugar (25, 9%), em seguida vêm os filhos que representam 24,7%, as mães (11,8% dos casos) e os irmãos (9,4%). Este dado é muito interessante, apontando sugerindo que quando as mulheres decidem emigrar levam os filhos, pois os homens, mesmo sendo a maioria, viajam acompanhados dos filhos em apenas 4,1% dos casos.

43Tal dado demonstra que enquanto os homens viajam com os pais e mães, as mulheres viajam com os maridos e filhos, revelando que as redes sociais não atuam da mesma forma para todos os membros do domicílio. Dessa forma a reunificação familiar torna-se um importante elemento da consolidação das redes migratórias, que ocorre através das redes acionadas no contexto da migração feminina. Este dado colabora com o argumento de Pessar (1999), segundo o qual os estudos de redes sociais, ao tratarem as redes familiares como sendo neutras segundo o gênero, encobriram o fato de que os direitos e responsabilidades nas mesmas são informados pelas normas do gênero e parentesco.

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Fonte : As Redes Sociais nas migrações internacionais os migrantes brasileiros para os EUA e Japão, 2001

44Uma das dificuldades para quem chega aos Estados Unidos é conseguir moradia. Assim, é muito comum entre os migrantes “dar um help”, que significa ajudar o emigrante recém-chegado com hospedagem e nas dicas para o primeiro emprego. Conforme demonstra o gráfico 4, os homens viajam mais sem referência para hospedagem que as mulheres. Mesmo assim é uma proporção pequena (10,2%) dos homens e apenas 6,5% das mulheres. Isso evidencia a importância de ter alguém esperando no destino. Quando analisamos quem possuía referência para hospedagem no destino constata-se que as mulheres contam bem mais com os parentes (49,3%) do que os homens (41,8%). Os homens, por sua vez, contam mais com as ajuda dos amigos (44,5% versus 35,3% das mulheres).

45Os dados apresentados sobre os imigrantes criciumenses revelam como essa ajuda é diferenciada para homens e mulheres, por exemplo, enquanto as mulheres contam mais com os parentes, os homens contam mais com os amigos, o que corrobora com a análise de Bott (1976).

46No entanto, matizando um pouco mais essas informações, conforme demonstrado acima, percebemos que, embora predomine a ajuda dos amigos para os homens, os parentes também têm um importante papel no momento da chegada e de arranjar o emprego. A ajuda recebida por homens e mulheres de diferentes integrantes dos laços de parentesco revela quais os parentes ajudam e qual a implicação nas relações de familiares.

47Quando viajam para arriscar a vida no exterior, os homens estão acompanhados de pais, mães e irmãos, contando mais com seus laços consangüíneos, e as mulheres viajam acompanhadas dos esposos e do filho, seus laços de conjugalidade e depois dos parentes. No caso de ajuda para a hospedagem, novamente entre os homens predomina a ajuda dos parentes de sangue : os irmãos e os pais, seguidos tios e primos. No caso das mulheres, há o predomínio dos laços de conjugalidade, as mulheres migram para se encontrar com seus cônjuges e o restante para se reunir com parentes consangüíneos.

48Tais dados evidenciam que, quando migram, homens e mulheres utilizam-se das redes de parentes e amigos em diferentes momentos do processo migratório e não se utilizam necessariamente da mesma forma, o que sugere que as mulheres estariam mais ligadas aos laços conjugais e às redes de parentesco que os homens. Fusco (2001, p. 75), quando analisa as redes sociais dos migrantes valadareneses, também constata a importância desses laços de parentesco para as mulheres ao demonstrar que 65,1% do total das mulheres conheciam parentes no destino versus 50,5% dos homens. Em ambos os casos, há uma ampliação da rede de parentes que integra a migração de longa distância em relação ao estudo de Massey et al. (1987), uma vez que esse autor analisou as redes de parentesco masculinas.

49Quando chegam no destino, os migrantes, depois de conseguirem um lugar para ficar por um tempo, precisam arranjar um trabalho. Neste momento, como já demonstraram outros estudos sobre migrantes brasileiros (Sales 1999, Schudeler 1999, Martes 1999, Fusco 2000) as redes sociais são muito importantes, pois os migrantes tendem a se encaminhar para os serviços onde se concentram os conterrâneos, amigos e parentes. Os migrantes de Criciúma, como os outros migrantes, utilizam-se das redes sociais para conseguir emprego.

50No entanto há uma diferença em relação ao auxílio para hospedagem, onde há predomínio da ajuda dos parentes para as mulheres e dos amigos para os homens. Neste momento, os dados indicam que para arranjar emprego, no geral o auxílio dos amigos tem um peso maior representando 47,5% do total da ajuda recebida enquanto a ajuda dos parentes representa 38% dos casos.

51Os dados apresentados evidenciam que os laços de parentesco são o principal componente das redes sociais dos migrantes criciumenses e que as mulheres utilizam-se mais desses laços. A importância das redes familiares também foi observada por Fusco (2001), com relação aos migrantes de Governador Valadares ao revelar a predominância das conexões familiares (56,1%) quando apresenta os dados de quem o migrante conhecia no destino. Portanto, os migrantes criciumenses, assim como os valadarenses, apóiam-se nas redes de parentesco e amizade para realizar o projeto migratório.

52O predomínio dessas redes informais articuladas entre amigos e parentes, ajudam a compreender porque redes institucionais são pouco mencionadas pelos imigrantes. Quando perguntados acerca de quem ajuda no financiamento da viagem os imigrantes revelam, mais vez, a importância desses laços e qual a contribuição das agências nesse processo. Nesse ponto é importante ressaltar que não estou me referindo aqui às redes de tráfico de pessoas que atuam tanto em Governador Valadares quanto em Criciúma, com o recrudescimento da política de emissão de vistos de entrada para os brasileiros, estou analisando apenas as agências que atuam como agências de turismo ou de recrutamento, como veremos a seguir.

53Os dados demonstram que, no caso da migração de Criciúma, as agências de viagem e de recrutamento têm um papel pouco significativo no que se refere ao financiamento e recrutamento dos imigrantes, bem como no help inicial no destino. Embora seja através das agências que esses migrantes comprem suas passagens, organizem a documentação para tirar o visto e enviem o dinheiro recebido, não são elas que articulam o processo e, sim os amigos e parentes que aqui e lá conectam a origem e o destino, configurando as redes sociais. Fusco (2001) também constata a importância das redes de parentesco, de amizade e de origem comum, no caso dos migrantes de Governador Valadares, ao demonstrar quem esperava os migrantes e quem ajudou a arranjar o primeiro emprego.

54Quando as agências de turismo passam a integrar essa rede migratória, não é no sentido nem de arrumar dinheiro, nem trabalho, que é que o possibilita o empreendimento migratório, mas sim para receber as remessas dos imigrantes, como se pode observar em Fusco (2001) e Soares (2003).

55Portanto, pode-se dizer que as agências ajudam na venda de passagens e informações sobre como conseguir o visto, no caso do visto americano, e ganham com o crescimento e a consolidação do fluxo migratório através das remessas feitas pelos imigrantes. A constituição de uma rede migratória é concretizada no cotidiano de relações tecidas por vários integrantes do grupo de parentesco ao longo do processo migratório. No caso da migração de Criciúma, como foi demonstrado, não são quaisquer parentes que auxiliam na empreitada, o que implica em diferenciados acessos às redes para homens e mulheres imigrantes.

56Nesse ponto, é importante destacar o que ocorre quando outros agentes articulam o processo migratório, como é o caso da cidade de Maringá, no estado do Paraná. Diferentemente da organização social da migração de criciumenses e valadarenses, no caso dos migrantes de Maringá para Japão, as agências de recrutamento têm um papel crucial para o empreendimento migratório. Segundo Sales et alli. (2001) e Sasaki (2001), 70,4% dos migrantes maringaenses, que são em sua maioria descendentes de nipo-brasileiros, contam com algum tipo de serviço prestado pelas agências de recrutamento7, as quais atuam em proporção bem maior que as redes de parentesco e de amizade.

57As agências de recrutamento em Maringá organizam o processo de migração legal para o Japão e atuam fornecendo empréstimo para o migrante em 57,4% dos casos, auxiliando na hospedagem em 64,3% dos casos e arranjando o primeiro emprego, em 72% dos casos. Atuando como agenciadoras de imigrantes legais, tais agências tornam-se articuladoras do processo migratório e têm participação mais significativa que as redes de parentesco e de amizade, que emergem como segunda opção para os maringaenses.

58No entanto, mesmo com o predomínio desses agentes, que agem como recrutadores de imigrantes para firmas japonesas, a ajuda oferecida por parentes é substantiva. Os parentes representam 28,2% daqueles que ajudam na hospedagem, 20,2% daqueles que auxiliam a arranjar o primeiro emprego e, no caso dos recursos financeiros, os parentes representam 19,4% daqueles que fornecem empréstimo para a primeira viagem.

59Esses dados são sugestivos, pois demonstram diferenças entre as cidades de origem dos fluxos de migrantes brasileiros que sugerem uma configuração dos mesmos. Tais fluxos direcionam-se para lugares diferentes, os migrantes criciumenses e valadarenses seguem como primeira opção para os Estados Unidos, enquanto os maringaenses migram principalmente para o Japão. Há o predomínio da migração legal pra o Japão, em 95% dos casos, enquanto predomina a migração indocumentada entre os migrantes criciumenses (86,9%) e valadarenses.

60Essas características gerais dos fluxos podem ter impacto na configuração das redes sociais, porque enquanto os maringaenses contam com uma estrutura formal representada pelas agências de turismo, agências de recrutamento ou empreiteiras, os migrantes valadarenses e criciumenses utilizam os laços informais propiciados pelas redes de parentesco e amizade, ou de outras redes igualmente informais e até mesmo clandestinas, como as que « montam passaportes » para aqueles que se aventuram pelo México.

61Ao longo das duas últimas décadas do século XX, os brasileiros residentes no exterior foram construindo múltiplas relações econômicas, culturais e familiares, o que sugere que os imigrantes, mesmo ausentes no exterior, continuam em contato com as suas cidades de origem (Assis 1995, Sales 1999).

62Tal contato é traduzido em investimentos nas cidades de origem que movimentam o comércio local notadamente a construção civil, que movimenta o mercado imobiliário e também fazem surgir microempresas movimentadas pelos dólares que os familiares recebem. Tais investimentos têm movimentado a vida de cidades que se tornaram ponto de partida de emigração, como Governador Valadares8 (MG) e Criciúma (SC)9 ou Maringá (PR)10, cidades que ao longo das últimas décadas construíram múltiplas relações entre a sociedade de origem e a de destino. Os investimentos demonstram que os migrantes têm projeto de retornar ao país e que se mantêm em contato com ele. Somados às remessas enviadas para manter os familiares que permaneceram no país, os investimentos representaram, em 2002, a entrada de US$ 2,6 bilhões de dólares no país11.

63Na cidade de Criciúma, algumas imobiliárias abriram filais na região de Boston, na cidade de Somerville, para vender casas e apartamentos para os imigrantes no Brasil. Durante o trabalho de campo, conversei com Bia Tramontim, proprietária de uma imobiliária com sede em Criciúma e filial, em Somerville relatou que os migrantes olham o projeto de apartamento ou casa pronto ou na planta, mas é o parente que ficou no Brasil, em geral os pais, que acompanha as obras e manda os retratos ou filmagens mostrando o andamento da obra. Assim, muitos migrantes quando retornam para o Brasil já encontram a casa ou o apartamento pronto.

64Embora os dados sobre os investimentos em Criciúma sejam estimativos e possam estar superestimados, as informações ressaltam a importância das remessas para o local de origem e revelam a constituição de uma rede de agências de turismo e imobiliárias que se inserem nessa rede migratória. Nesse ponto, as redes de parentes cruzam-se com as redes agências de turismo e imobiliárias na realização do projeto migratório, num negócio bastante lucrativo para as empresas.

65Os migrantes criciumenses, assim como outros migrantes internacionais, partem com o projeto inicial de trabalhar e juntar dinheiro a fim de melhorar o padrão de vida no Brasil. Nesse sentido, as remessas são um importante indicativo da realização desse projeto e também dos laços de reciprocidade que envolve as redes, pois aqueles que partem ficam com o compromisso de ajudar os parentes que ficaram.

Gráfico 5 - Remessas dos emigrantes Criciumenses, Criciúma 2001

Gráfico 5 - Remessas dos emigrantes Criciumenses, Criciúma 2001
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66Ao analisarmos os dados das remessas dos migrantes distribuídas segundo a sua condição no domicílio (gráfico 5) verifica-se que são os chefes de domicílio que mais remetem dinheiro para o Brasil : 55% enviam dinheiro para manter a família e 15,8% remete para investimento. Os cônjuges vêm em seguida com 41% enviando dinheiro para manter a e 10% fazendo investimento. Os filhos, que constituem a maioria da população migrante, no entanto, são os que realizam menos remessas para manter a família (28.6%) e 16.6% que enviam dinheiro para investimento. Este dado revela que o projeto migratório pode variar entre os pais e os filhos, sendo que estes podem ter projetos que não incluam toda a família enquanto os chefes teriam mais obrigações com o domicílio.

67Portanto, em Criciúma, assim como em Governador Valadares construíram-se conexões entre os EUA e a região, dessa forma podemos compreender, porque essa cidade da região sul do Brasil se insere no cenário brasileiro como um novo ponto de partida para os emigrantes brasileiros. Nesse artigo, ao comparar sucintamente as experiências de valadarenses e criciumenses pretendi demonstrar como algumas cidades no Brasil, estruturaram conexões transnacionais criando um singular campo social que envolve os que partiram e os que ficaram numa complexa rede de relações que auxilia tanto no momento da partida, quanto na chegada no destino, bem como na administração dos investimentos na cidade de origem.

68Neste sentido, embora tanto em Governador Valadares quanto em Criciúma as políticas públicas aos emigrantes ainda sejam muito incipientes, iniciam-se projetos nas cidades para orientar os investimentos dos emigrantes e oferecerem suporte àqueles que ficaram.

69As conexões possíveis entre os imigrantes e os emigrantes do presente evidenciam-se através dessas redes familiares que demonstram que este projeto individual, em geral está sustentado nas relações familiares, que são muito importantes para todo o projeto desde o momento de preparar para a partida, o apoio emocional e financeiro, até as viagens que os pais fazem para os EUA para matar as saudades, ou as ajudas para arranjar emprego nos locais de destino. Nessas redes as mães, esposas, namoradas, irmãs são muito importantes, pois fazem circular as informações entre os demais membros das famílias. O que se constata tanto daquele que partiram quanto daqueles que ficam é uma tentativa de manter seus laços com o Brasil, com os familiares o que aponta pra uma transnacionalização das relações familiares que se constroem entre os dois lugares.

Considerações finais

70Os migrantes criciumenses inserem-se na migração internacional ao longo da década de 90. Assim como os mineiros de Governador Valadares, os catarinenses partiram em direção à « América » com um projeto migratório comum : comprar uma casa, um carro, montar um negócio. Esse fato revela um aspecto interessante das redes sociais que atuam na migração, pois uma parcela dos novos migrantes criciumenses é descendente de italianos e, portanto, têm a cidadania italiana o que abre o mercado de trabalho na Europa.

71No entanto, ao invés utilizarem da cidadania italiana para migrar para a Itália, a maioria segue o caminho aberto pelos mineiros, goianos, cariocas e outros brasileiros de diferentes origens regionais partindo rumo à região da grande Boston. Assim, um século depois, os criciumenses repetem a trajetória de seus nonos e nonas, continuando num certo sentido o projeto de « fazer a América », partindo em direção aos Estados Unidos.

72Portanto, como foi demonstrado, tanto no survey quanto na pesquisa qualitativa12 realizada na região de Boston, os criciumenses partem para onde há melhores oportunidades de trabalho, mas fundamentalmente para onde possam encontrar uma rede de apoio para recebê-los. Assim, tecem as redes sociais na migração. Esse movimento, relativamente autônomo ao Estado e às forças estruturais, é caracterizado por ser de difícil apreensão, pois é fundamentalmente baseado em laços informais, construídos entre parentes, amigos e conterrâneos, muitas vezes distantes, mas que em terras estrangeiras tornam-se uma referência fundamental.

73Assim, procurei apreendê-las analisando o tipo de ajuda dada e recebida por mulheres e homens no processo migratório. Desse modo, as redes sociais acionadas no contexto da migração foram analisadas como práticas sociais que envolvem tipos diferentes de ajuda material, logística, emocional e simbólica que possibilitam aos futuros migrantes partirem com referências mínimas de onde ir, qual o trabalho que irão fazer, com quem vão morar, etc.

74Enquanto seus filhos/as e netos/as trabalham pelo mundo, seus/suas « nonos/as » e mães/pais (quando não são eles próprios migrantes) tocam sua vida, preparam a casa para recebê-los, muitas vezes administrando o dinheiro que é enviado. Tais questões sugerem vários arranjos familiares em que as mulheres assumem um status peculiar. O contato com o Brasil entre os que emigram e os que ficam é mantido por meio das cartas, fotos, telefonemas, remessas e, mais recentemente, por meio da internet, atualizando e reforçando a idéia do projeto familiar, econômico e afetivo que é a imigração. Dessa forma, o projeto de emigrar não é visto apenas como desestruturador das relações familiares (este é um estereótipo recorrente na cidade), mas como uma realidade que possibilita novos arranjos familiares e de gênero.

75A migração de longa distância provoca grandes transformações para os sujeitos que vivenciam essa experiência. Porém, em vez de pensá-la apenas como um fator que provoca o rompimento de laços, procurei complexificar a análise demonstrando que também possibilita novos arranjos familiares e de gênero.

76Portanto, a família migrante não pode ser vista apenas como aquela cujos laços são desfeitos no contexto de migração, mas como aquela que tem suas relações reconstruídas em um contexto no qual também se redefinem as relações de gênero, construindo um campo complexo de relações entre os dois lugares que aponta para a com configuração de laços transnacionais que conectam em diferentes contextos o estar aqui e estar lá.

77Iracema voou para a América, não domina o inglês, lava chão americano, mas com certeza tece ao longo desse processo várias redes que, em diferentes momentos, ajudam-na nessa arriscada empreitada.

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Psicologia: ciência e profissão

versão impressa ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.30 no.2 Brasília jun. 2010

 

ARTIGOS

 

A divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres no cotidiano do casamento*

 

The division of household labor between men and women in everyday marriage life

 

La división de tareas domésticas entre hombres y mujeres en el cotidiano del casamiento

 

 

Bernardo Jablonski**

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente trabalho visa a investigar como se dá a negociação de tarefas dentro do lar face às novas demandas impostas a reboque do movimento de emancipação feminina e do ingresso maciço das mulheres no mercado de trabalho. Procuramos avaliar atitudes e comportamentos acerca de diversos tópicos relativos ao cotidiano da vida em comum entrevistando 20 membros de casais heterossexuais de classe média, com idades entre 30 e 40 anos, com pelo menos 5 anos de união e ao menos um filho. Entre os principais resultados, destacamos que, apesar da existência de uma dupla jornada de trabalho e das dificuldades demonstradas pelos homens em compartilhar de forma igualitária as tarefas domésticas – recaindo sobre a mulher o peso maior (cuidar da casa e das crianças, fazer compras, arrumar, lavar e passar, etc.) – não observamos, como seria esperado, um aumento considerável de conflitos na relação marital.

Palavras-chave: Gênero, Atitudes, Tarefas domésticas, Casamento.


ABSTRACT

The current article investigates how housework negotiations occur inside the home, due to the new demands that emerged with the women's lib movement and the increase of women in labor-force participation. We evaluated attitudes and behaviors regarding several topics in a couple's life by interviewing 20 heterosexual middle-class couples, with ages between 30-40 years, with at least 5 years of marriage and at least 1 child. Among our major results, we highlight the fact that despite the existence of a double working schedule and the difficulties expressed by men in sharing household chores in an egalitarian fashion – which greatest weight relies upon women (caring for the house and the children, shopping, organizing, doing laundry, ironing, etc.) – we did not observe, as could be expected, a great increase in conflicts in marital relationship.

Keywords: Gender, Attitudes, Housework, Marriage.


RESUMEN

El presente trabajo visa a investigar cómo se da la negociación de tareas dentro del hogar frente a las nuevas demandas impuestas a remolque del movimiento de emancipación femenina y del ingreso macizo de las mujeres en el mercado de trabajo. Procuramos evaluar actitudes y comportamientos acerca de diversos tópicos relativos al cotidiano de la vida en común entrevistando a 20 miembros de parejas heterosexuales de clase media, con edades entre 30 y 40 años, con por lo menos 5 años de unión y al menos un hijo. Entre los principales resultados, destacamos que, a pesar de la existencia de una doble jornada de trabajo y de las dificultades demostradas por los hombres en compartir de forma igualitaria las tareas domésticas – recayendo sobre la mujer el peso mayor (cuidar de la casa y de los niños, hacer compras, arreglar la casa, lavar y planchar, etc.) – no observamos, como sería esperado, un aumento considerable de conflictos en la relación marital.

Palavras clave: Género, Actitudes, Tareas domésticas, Casamiento.


 

 

A ideia de pesquisar nessa área proveio do fato de que a atual família nuclear urbana e a instituição do casamento passam por momentos de transição. Profundas mudanças de ordem socioeconômica e cultural vêm levando o casamento contemporâneo a um estado de instabilidade, como se infere do aumento do número de separações, a tal ponto que, aproximadamente, cinquenta por cento das uniões tendem à ruptura em alguns anos (Coontz, 2005; Demo, 2007; Epstein, 2002; Schoen & Canudas-Romo, 2006). Embora esses números se refiram aos EUA, pesquisas realizadas nos grandes centros urbanos ocidentais indicam a mesma tendência, variando apenas a magnitude da taxa em questão. No Brasil, por exemplo, tomados os dados relativos entre os anos 1997 e 2007, o número de divórcios aumentou 200%, enquanto o de casamentos legalizados cresceu apenas pouco mais de 26% (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2007). Além disso, evidências anedóticas relativas às populações de classes carentes, que residem nas cidades grandes ou em sua periferia, mostram igualmente que a crise do casamento não se atém apenas a determinado tipo de cultura/classe social (Jablonski, 1998).

Esses dados revelam, a nosso ver, mudanças significativas no âmbito da família e do casamento. De certa forma, a própria definição de família parece estar em questão, já que o modelo herdado dos anos 50, no qual o pai sai para trabalhar e a mulher fica em casa, dedicada ao lar e aos filhos, parece estar deixando de ser hegemônico. Na verdade, esse modelo, dividido em rígidas esferas e visto como tradicional, foi, historicamente, apenas uma primeira versão do que chamamos de família moderna (Skolnick, 2006). De fato, o período compreendido entre 1900 e meados da década de 70, ainda que de curta duração, produziu forte impacto sobre o imaginário popular. Embora o casamento tenha sempre sido uma parceria entre homens e mulheres, esse típico arranjo de uma era, no qual as mulheres se dedicavam às tarefas domésticas/ cuidado dos filhos enquanto os homens saíam de casa para se devotar ao trabalho e à carreira, deitou raízes profundas em termos de ideais de casamento e de papéis de gênero a serem desempenhados (Amato, Booth, Johnson, & Rogers, 2007).

De qualquer modo, hoje em dia, nos grandes centros urbanos ocidentais, encontram-se em maior ou menor número famílias nas quais pai e mãe trabalham fora, compostas por pais e/ou mães em seus segundos casamentos, por mães solteiras que assumiram (por opção ou não) a maternidade e passaram à condição de famílias uniparentais, por casais sem filhos (por opção ou não), por casais que moram juntos e por casais homossexuais. Todas as formas alternativas se contrapõem ao modelo tradicional, e vão redefinindo na prática o conceito de família ou as expectativas quanto ao casamento tradicional. Ainda segundo o IBGE (2005), 50% dos domicílios estão organizados em torno de formas nas quais, no mínimo, um dos pais está ausente.

 

Entre propostas igualitárias e práticas tradicionais

A par das diferenças culturais e dos avanços a reboque do movimento feminista, parece persistir uma visão conservadora dos papéis dos cônjuges no que se refere às tarefas domésticas e à responsabilidade pelo cuidado e educação dos filhos. Teoricamente, as perspectivas dos recursos econômicos relativos e de gênero têm predominado na base da literatura a respeito. A primeira enfatiza os aspectos racionais/econômicos e leva em conta os ganhos relativos de homens e mulheres na alocação de tarefas domésticas. Essa perspectiva pressupõe maior igualdade em função dos crescentes e substanciais ganhos femininos em termos de educação e salários, entre outros (Blood & Wolfe, 1960; Brines, 1994; Coltrane, 2000).

Já a perspectiva de gênero aponta a dificuldade de mudanças substantivas face à profunda internalização de bem estabelecidas diferenças de atuação. Essa concepção, ancorada em vieses culturais solidamente enraizados em sociedades patriarcais, superaria a influência mais individual relacionada aos cônjuges – ligada a educação, ganhos individuais, status e disponibilidades temporais –, fazendo com que predominasse a visão tradicional de divisão de tarefas (Thompson, 1995). Em outras palavras, a realidade macrossocial sobrepuja a microssocial no que diz respeito à assunção de tarefas dentro do lar, de acordo com o que prega uma visão teórica mais alinhada com a postura de perspectiva de gênero (Berk, 1985; Ferree, 1990) – que atrela a construção simbólica do feminino à realização da maior parte dos trabalhos domésticos. Nesse sentido, seria mais difícil para homens adotarem posturas mais femininas (realização de tarefas domésticas). Ambas as suposições encontram respaldo em pesquisas sobre o tema (Bianchi, Milkie, Sayer, & Robinson, 2000; Sayer, Philip, & Casper, 2004).

O foco do presente estudo está no cotidiano dos casais sob a ótica da divisão das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos face às consequências do movimento de emancipação feminina. Acreditamos, em consonância com a vasta literatura a respeito (Amato et al., 2007; Artis & Pavalko, 2003; Baxter, Hewitt, & Haynes, 2008; Coontz, 2005; Diniz, 1996; Féres-Carneiro, 1998; Goldenberg, 2000, Robinson & Hunter, 2008; Rocha Coutinho, 2003, 2004, 2007; Thistle, 2006; Vaitsman, 1994), que esse movimento veio transformar profundamente as relações de gênero, aliado à entrada maciça da mulher de todas as classes sociais no mercado de trabalho e de suas consequências – casamentos mais tardios, diminuição no número de filhos, maior independência por parte das mulheres e aumento de conflitos gerado pela busca da igualdade de direitos.

Assim, parecem cada vez menos frequentes os arranjos matrimoniais em que apenas um dos parceiros se encarrega sozinho do sustento da família. As mulheres se voltam, mais e mais, para o trabalho fora de casa, não só porque ele possibilita atingir melhor padrão de vida para a família mas também pelo fato de o sucesso profissional ser encarado como uma forma de realização pessoal e social (Goldenberg, 2000; Rocha-Coutinho, 2003; Thistle, 2006), além de assegurar maior independência financeira, algo importante em tempos nos quais o casamento nem sempre é duradouro. Em consequência, o número de horas despendido nas tarefas de casa diminuiu sensivelmente nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa (Jacobs & Gerson, 1998; Sayer, 2005), pari passu a um aumento da quantidade de horas dedicadas ao trabalho fora de casa por pessoas na faixa etária compreendida de 25 a 45 anos, normalmente, pais com filhos pequenos (Amato et al., 2007; Daly, 2003).

No Brasil, babás e empregadas domésticas fazem uma diferença, no sentido de suprir em parte a ausência das mães que se dedicam mais intensamente ao trabalho fora de casa, ainda que haja dúvidas acerca do número real de lares que incluem a presença de empregadas domésticas. Para o IBGE (2000), apenas 11% dos domicílios brasileiros contam com a presença de uma empregada doméstica, morando ou não na residência, o que nos leva, sem dúvida, a contextualizar os resultados das pesquisas e estudos feitos nas culturas onde não há esse tipo de mão de obra disponível, ao contrário do Brasil e de outros países da América Latina.

Araújo e Scaflon (2005), após ampla pesquisa realizada em 2003, que contou com 2000 domicílios em 24 Estados brasileiros, chegaram à mesma conclusão, ao constatar que a maior parte do trabalho doméstico entre nós ainda continua sendo majoritariamente uma atribuição feminina. Assim, para essas autoras, o ingresso das mulheres no mercado de trabalho não implicou uma divisão mais igualitária dos trabalhos domésticos, ainda que haja indícios de maior participação masculina no que diz respeito ao cuidado com os filhos (mas não nas tarefas domésticas).

Rocha-Coutinho (2003, 2004, 2005) observa igualmente em suas pesquisas que – a par de um discurso social igualitário – tanto homens como mulheres cariocas parecem endossar o ponto de vista (com diferentes níveis de consciência) de que a casa e os filhos são ainda responsabilidade maior da mulher, cabendo ao homem o provimento financeiro. Artis e Pavalko (2003) lembram que, em consonância com a perspectiva de troca social, ao aumento da taxa de mulheres na força de trabalho deveria corresponder uma queda em seus níveis de atividade dentro do lar, somada a uma divisão de trabalhos intralar mais equilibrada entre homens e mulheres. Mas as mudanças nesse sentido têm se mostrado muito pequenas e insatisfatórias, do ponto de vista feminino, em que pese a observação de que entre gerações mais jovens estaria havendo uma distribuição mais igualitária de afazeres e responsabilidades domésticas, a reboque de concepções de vida ideologicamente alinhadas com uma visão de papéis de gênero mais igualitária (perspectiva de gênero).

Por outro lado, na França, em 2000, segundo pesquisa levada a cabo pela CNSR (reportado no jornal Le Monde), 80% dos pais, apesar do discurso igualitário, na prática, não participam em quase nada no que diz respeito à educação e aos cuidados infantis e muito menos aos afazeres domésticos. A pesquisa em questão, após entrevistas com mil pais, confirma a noção de que, entre as bem intencionadas atitudes igualitárias e a prática do dia a dia, a distribuição de tarefas dentro de um lar ainda é bastante marcada pela divisão sexual, e as mulheres arcam com a maior parte delas.

Da mesma forma, para Coltrane (2000), embora a contribuição masculina nos afazeres dentro do lar esteja aumentando, as mulheres ainda trabalham pelo menos duas vezes mais que os homens cumprindo as tarefas rotineiras do lar: cuidar das crianças, lavar e passar roupas, fazer compras no supermercado, limpar a casa, etc. Para esse autor, as consequências dessa injusta divisão são vistas, frequentemente, em sentimentos de injustiça, sintomas de depressão e de insatisfação com o casamento por parte das mulheres. Por outro lado, maior participação masculina nessas tarefas seria um excelente preditor de satisfação marital. A percepção de que estaria havendo uma injusta divisão de tarefas levaria, pois, a um sensível aumento de conflitos e à diminuição da satisfação marital (Blair, 1988; Greenstein, 1996; Kluver, Heesink, & Van de Vliert, 1996; Lavee & Katz, 2002).

Fuwa (2004) lembra que, de fato, houve progressos na área, de vez que a participação feminina nas tarefas domésticas vem caindo substancialmente. Assim, por exemplo, entre os anos 60 e 90, o número de horas despendidas nesse tipo de tarefas teria caído pela metade para as mulheres e dobrado para os homens norte-americanos (Bianchi et al., 2000). Concomitantemente, no entanto, persiste a noção de segregação por gênero, já que caberia à mulher a responsabilidade por inúmeras tarefas domésticas tidas como essencialmente femininas.

Pleck (1997) confirma, em suas pesquisas, que a mulher tem convocado – ou ao menos tentado – cada vez mais seu companheiro a participar dos cuidados com os filhos. O autor encontrou fatores que podem ajudar o envolvimento do pai, como, por exemplo, a idade (filhos pequenos sensibilizam mais do que adolescentes), o sexo dos filhos (meninos também parecem receber mais atenção dos pais) e o dia da semana (fins de semana parecem o período mais apropriado para que o pai exerça a sua função).

Em nossos estudos anteriores, notamos igualmente (Brasileiro, Jablonski, & Féres- Carneiro, 2002; Jablonski, 1988, 1996, 2001, 2003), no que diz respeito às atitudes, um crescente interesse dos homens em participar, cada vez mais, dos cuidados com os filhos. Porém, ao passarmos para o campo dos comportamentos, ou seja, da ação propriamente dita, isso não se daria, como se houvesse uma promessa de mudança que não é cumprida, circunstância que tende a gerar frustração nas mulheres.

Na citada pesquisa de 2005, do IBGE, constatou-se igualmente que a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho não tem reduzido substancialmente a sua jornada nos afazeres domésticos. Assim, o tempo dispensado nestes é de 9,1 horas semanais para os homens e de 21,8 para as mulheres. Para as mulheres casadas com filhos menores de 14 anos, os números chegam a 29 horas semanais.

Essa situação de disparidade de papéis seria vivenciada pelas mulheres, aparentemente, de forma dolorosa, uma vez que há uma promessa no ar de igualdade de funções, alimentada por atitudes dos próprios homens, o que ocasiona uma expressiva fonte adicional de conflitos dentro de uma área já suficientemente carregada de problemas. Diante desse quadro, muitas mulheres sentirse- iam traídas e sobrecarregadas, visto que a divisão igualitária dos papéis, não se dando na prática, contribuiria para que a mulher se sentisse cada vez mais solitária em suas funções diárias (Jablonski, 1998). Por outro lado, no entanto, Araújo e Scalon (2005), em seu estudo citado por nós anteriormente, com pessoas predominantemente de baixa renda, reportaram baixos índices de conflito ocasionado pela discrepância entre o que homens fazem em casa e o que as mulheres esperam que eles façam. As autoras aventam a possibilidade da existência de tensões significativas latentes, ainda que as mesmas não se traduzam em conflitos explícitos entre homens e mulheres.

Demo (1992) corrobora a existência de mudanças ao verificar que a participação masculina tem se tornado mais efetiva, principalmente entre os pais com menos de 30 anos de idade ou com filhos em idade pré-escolar. Em conformidade com a maior parte dos estudos, o autor reconhece que as mudanças não têm sido as esperadas, embora a participação dos pais tenda a aumentar à medida que os filhos crescem, com adolescentes recebendo mais atenção do que bebês, uma vez que pais não amamentam e mães não costumam acompanhar os filhos em jogos de futebol. Bianchi et al. (2000) e Sayer, Bianchi e Robinson (2004) também engrossam as fileiras dos que reportam um aumento substancial de homens se engajando mais em tarefas domésticas e cuidados com as crianças, desde os anos 60.

Para Jacobs (2004), um modelo mais igualitário, excelente na teoria, tem trazido na prática inúmeros problemas, em função de expectativas e responsabilidades ainda sob forte influência de papéis de gênero predeterminados. Dessa forma, papéis mais tradicionais estariam sempre competindo com as escolhas mais contemporâneas, o que acarretaria uma confusão acerca de que paradigmas seguir. Isso estaria levando os casais à formulação de expectativas irrealizáveis bem como a sentimentos mútuos de incompreensão, de ressentimento e, finalmente, de rejeição.

Assim, o que um significativo conjunto de estudos tem demonstrado, em que pese algumas mudanças, é que inúmeros aspectos da vida cotidiana parecem continuar imputados à responsabilidade feminina. A presente pesquisa pretende debruçar-se justamente sobre esses aspectos da vida em comum, investigando como a alteração de papéis resultante da emancipação da mulher vem se refletindo na organização interna dos lares, averiguando até onde as mudanças de atitudes e ideias acerca do papel feminino se concretizam em uma efetiva divisão das tarefas domésticas (discurso x prática), se existe ou não a denominada tripla jornada de trabalho da mulher, incluídos os gastos em tempo e energia na esfera dos cuidados com a beleza) e ainda em que medida essa nova realidade vem acrescentando pontos de atrito à vida conjugal.

 

Objetivos

O presente trabalho teve como objetivo maior pesquisar o cotidiano do casamento de jovens casais que se dividem entre a vida familiar e a profissional. Procuramos investigar como vem se dando entre os membros de casais urbanos de classe média a negociação de tarefas dentro do lar face às novas demandas impostas pelo ingresso maciço das mulheres no mercado de trabalho.

Assim, face à dupla jornada de trabalho e às dificuldades demonstradas pelos homens em compartilhar de forma mais igualitária as tarefas ditas domésticas (cuidar da casa e das crianças, fazer compras, arrumar, lavar e passar, entre outras atividades), seria de se esperar um aumento considerável de conflitos dentro dos casamentos de hoje. A existência (e em que grau) de atritos e a forma como os cônjuges lidam com essas demandas antagônicas – fruto da herança de papéis de gênero tradicionais em conflito com as perspectivas contemporâneas mais igualitárias – foi o foco principal do presente estudo.

 

Metodologia:

Sujeitos

Vinte (20) membros de casais heterossexuais de classe média, com idades entre 30 e 45 anos (com pelo menos 5 anos de união), ambos trabalhando fora de casa, e com a condição de terem ao menos um filho.

Instrumentos e procedimentos

Lançamos mão de uma metodologia qualitativa, utilizando como instrumento entrevistas com roteiro semiestruturado (v. anexo I). As entrevistas foram realizadas na residência dos casais, sendo cada um dos membros entrevistado separadamente em cômodos distintos e as entrevistas gravadas e transcritas na íntegra, com duração aproximada de 30 minutos por cônjuge. Cabe frisar que as informações prestadas não foram reveladas ao parceiro, tendo sido utilizados nomes fictícios por motivos éticos, sem vínculos de afetividade entre os entrevistados e entrevistadores para que estes não ficassem inibidos ao dar algum tipo de resposta, o que poderia afetar os resultados.

Seis grupos de temas foram abordados (informações gerais sobre o entrevistado, opinião sobre o casamento e a educação dos filhos, lazer, vida doméstica cotidiana, cuidado dos filhos e apreciação pessoal sobre a divisão das tarefas), procurando conferir a maior abrangência possível ao nosso estudo. Não foram feitas perguntas ligadas à intimidade do casal ou a qualquer outro tema que pudesse ser considerado embaraçoso.

 

Análise dos dados

Para a devida avaliação do material obtido através das entrevistas, procedemos a uma análise do conteúdo, como proposto por Bardin (1979), entre outros autores. Assim, as categorias de análise foram estabelecidas a partir dos dados logrados nas entrevistas, embora a própria seleção de temas (mencionados acima) tenha contribuído para a constituição das categorias.

 

Resultados

Com relação à nossa amostra, a média de idade das mulheres foi de 33,45 anos e a dos homens, de 38,22 anos. A duração média dos casamentos foi de 9 anos, e metade da amostra tem 2 filhos, e metade, 1 filho, sendo que 2 homens não têm filhos, mas exercem a função de padrastos.

Os entrevistados tinham profissões as mais variadas, sendo predominante o exercício do trabalho fora de casa, com jornada préfixada. No caso dos homens, contamos com engenheiros, administradores, economistas, comerciantes e consultores, dentre outras profissões. Entre as mulheres, predominaram advogadas, comerciantes e artistas. Os homens despendiam, segundo seus relatos – no trabalho fora de casa – em média 9,4 horas por dia, enquanto as mulheres 7,5 horas, dados consonantes com os de outras pesquisas (Amato et al., 2007; Sayer, 2005). Entre as questões introdutórias, opinando sobre o que faz durar um casamento, as mulheres valorizaram mais o respeito do que o amor, e os homens, o inverso. Esses resultados vão de encontro às crenças de que mulheres seriam mais românticas e idealizadoras que os homens, embora estudos conduzidos nas últimas décadas tenham mostrado o inverso, isto é, que os homens é que seriam mais românticos, apaixonando-se primeiro e subscrevendo, comparativamente, mais mitos e crenças a respeito ("amor verdadeiro é para sempre", "sabemos quando encontramos a pessoa certa", etc.). As mulheres, por sua vez, seriam mais pragmáticas, levando em consideração os recursos socioeconômicos de seus pretendentes e acreditando que relações românticas devem ter uma sólida base de amizade (Dion & Dion, 1996; Fehr & Broughton 2001; Hendrick & Hendrick, 1995; Fehr, 2006). Outros autores, no entanto, consideram os resultados das pesquisas simplesmente não conclusivos (Moore, Kennedy, Furlonger, & Evers, 1999; Peterson & Shoemaker, 1993; Singelis, Choo, & Hatfield, 1995), o que aponta a necessidade de se pesquisar mais a fundo as diferenças de gênero quanto às concepções do amor.

Em relação aos fatores que levam à manutenção do casamento, foi digna de nota – e igualmente de espanto – a quase ausência de referência à sexualidade. Ou os sujeitos partem da premissa que o sexo é obviamente parte integrante do casamento e que, por isso, nem precisa ser citado, ou esse não é um elemento importante para a manutenção do casamento, o que nos parece pouco provável. Pesquisa Datafolha de 2007 também chegou a resultados similares em uma amostra com mais de 2000 entrevistados, ainda que com uma pergunta um pouco diferente (O que é mais importante em um casamento?). As respostas mais frequentes foram: fidelidade, 38%; amor, 35%; honestidade, 15%, e filhos, 5%. A vida sexual satisfatória foi valorizada por apenas 2% da amostra, o que deve, a nosso ver, nortear futuras pesquisas que procurem averiguar porque o sexo não é citado como fator importante para a manutenção do casamento.

Entre as vantagens de estar casado, obteve destaque, entre os homens, a menção à constituição de família, o que coincide com outros estudos, como os levados a cabo por Féres-Carneiro (1998, 2001) e Magalhães (1993), que observaram a importância conferida a essa questão pelos homens. Igualmente no que diz respeito à segurança, tanto financeira quanto emocional, os homens, preponderantemente, citaram esse fator como vantagem do casamento.

Na indagação acerca das desvantagens do casamento, detectamos diferenças perceptivas entre homens e mulheres, com os primeiros ressaltando a perda de liberdade de uma forma mais evidente, apesar de estas ainda se manterem mais presas, em função de seu trabalho dentro e fora de casa. Isto é, quem mais se queixa – o homem – não é de fato quem mais perde! Já no discurso delas, não houve uma resposta preponderante, mas referências de igual monta à perda da individualidade, de privacidade e da liberdadepara tomar decisões que envolvem a vida profissional. Apareceu ainda no discurso de homens e mulheres a convicção de que o casamento, na verdade, não apresenta muitas desvantagens. É uma questão de acréscimo, segundo o discurso reproduzido de um deles, ainda que em outras palavras, por quase todos os entrevistados. Perguntados sobre o que fariam de diferente do casamento de seus pais em relação às diferenças à educação dada aos filhos, notamos a importância do diálogo e da maior liberdade, além da busca de criar com os filhos uma relação menos severa e mais amigável. No discurso masculino, surgiu ainda o desejo de ser mais presente do que os pais, o que demonstra, portanto, maior participação masculina por vontade própria na criação e educação dos filhos.

Quanto ao lazer, os hábitos relatados pelos entrevistados são muitíssimo variados, e as diferenças podem, em grande parte, ser creditadas à existência, em graus distintos, de uma estrutura de apoio (babá, avós, empregada) no cuidado com as crianças. Mesmo assim, casais com filhos pequenos informaram direcionar sua programação de lazer para atividades que possam ser compartilhadas com as crianças, embora, em alguns casos, tenha havido a menção a atividades exclusivas do casal, nas hipóteses em que o apoio antes referido se faz presente. Assim, o lazer entre os casais pesquisados é fortemente marcado pela presença dos filhos, basicamente em função da faixa etária das crianças, todas em idade escolar, com média de 7 anos. As atividades mais relatadas pelos sujeitos foram (para ambos os sexos): ida ao cinema e a restaurantes, em primeiro lugar, seguidos de shopping, teatro e praia, geralmente incluindo as crianças. Foi no lazer individual que observamos uma forte disparidade entre os sexos. Enquanto os homens relatam que dispõem de um tempo para estar com os amigos, sem a esposa e os filhos (o "futebol" e o "chopinho"), as mulheres relatam ter pouco tempo para o lazer individual. Curioso é que, mesmo com essa diferença, como vimos acima, foram os homens que demandaram mais tempo para o lazer individual, enquanto as mulheres, embora comentando que gostariam de ter esse tempo, não afirmaram ser essa uma necessidade premente. Outros estudos também têm evidenciado que as mulheres (mães) têm menos tempo livre que os homens (pais) (Mattingly & Bianchi, 2003; Sayer, 2005).

No que tange à divisão de tarefas dentro do lar, todos os entrevistados afirmaram contar com ajuda profissional para a realização das tarefas domésticas (empregada, diarista, folguista) bem como com o auxílio de familiares no que se refere ao cuidado com as crianças. Segundo a pesquisa realizada por Araújo e Scalon (2005), já citada por nós, em apenas 7,5% dos lares há o apoio efetivo de uma empregada doméstica (morando ou não na residência). Já para o IBGE (2000), 11% dos lares brasileiros contam, oficialmente, com esse tipo de ajuda. Se confirmados, esses dados sinalizam a nossa amostra como, de fato, um caso à parte da realidade brasileira. Talvez seja no que diz respeito à divisão de tarefas propriamente dita que se dê a mais curiosa conclusão de nossa pesquisa. Por um lado, ambos os sexos parecem estar sendo influenciados por uma visão divulgada pela mídia e pela cultura sobre a igualdade entre os sexos, e declaram ser bastante participativos nas tarefas do lar. Essa participação dos homens se dá, em sua maior parte, nos cuidados com os filhos, muito mais do que nas tarefas da casa. Assim, a responsabilidade com a organização do lar e do trabalho da empregada ainda recai sobre a mulher.

Já as mulheres dizem caber a elas o maior fardo das tarefas e responsabilidades domésticas e com os filhos, e qualificam a participação dos maridos como uma ajuda, na maioria das vezes, bem-vinda e festejada. O que chama a atenção é que, mesmo cientes da disparidade na divisão de tarefas, as mulheres parecem não perceber tal fato como um problema e uma fonte de conflitos, o que demonstra a força da influência de modelos parentais tradicionais no que diz respeito aos papéis de gênero.

Quanto às tarefas domésticas realizadas pelo próprio entrevistado e aquelas realizadas pelo cônjuge, ao cotejarmos as informações prestadas por homens e mulheres, verificamos que os primeiros têm uma função coadjuvante, colaborativa ou periférica, isso segundo os depoimentos das mulheres. Já os homens relataram uma participação maior do que o que foi referido pelas mulheres. É possível que, como os entrevistadores eram todos do sexo feminino, eles possam ter dado respostas mais aceitáveis e agradáveis (efeito pavão). Uma hipótese alternativa (citada adiante) diz respeito a maior distorção perceptiva por parte dos homens, que estariam avaliando sua participação de modo excessivamente favorável. Kamo (2000) lembra também que face às pressões politicamente corretas, muitos homens que pouco fazem em termos de trabalhos domésticos compensariam esse gap entre o desejável e o real, superestimando suas contribuições nessa área.

Segundo as respostas obtidas, as mulheres teriam mais responsabilidades com o supermercado, com a administração da casa, dos empregados e da cozinha – o que foi confirmado pelos maridos em suas entrevistas. Já os homens disseram que também vão ao supermercado e, além disso, lavam a louça, fazem pequenos consertos e realizam pagamentos. As mulheres afirmaram que os homens, em sua grande maioria, não fazem nada em casa, em poucos casos, executam algum conserto ou concedem algum tipo de ajuda, e apenas quando solicitados. Embora essa situação pareça injusta, já que muitas vezes a mulher tem igual ou quase igual carga de trabalho fora de casa, no discurso feminino, nem sempre aparece um sinal claro de inconformidade com tal situação. Anos de socialização distinta, em consonância com a perspectiva de gênero, parecem ter inculcado, mesmo em mulheres de alto nível de escolaridade, de classe média e antenadas com os discursos da pós-modernidade, a noção mais tradicional de que tarefas domésticas não precisam mesmo ser divididas igualitariamente entre os sexos.

Só em relação ao cuidado com os filhos a participação masculina foi, de fato, maior, embora persistindo sua característica de subsidiariedade. São as mulheres que ainda dão conta da maioria das tarefas, frequentam reuniões da escola, faltam ao trabalho em caso de doença das crianças, além de qualquer tipo de acompanhamento necessário, seja escolar, médico ou até mesmo no transporte para alguma festinha – sendo que apenas nesse último item os maridos relataram contribuir. A família e as empregadas geralmente auxiliam nesse cuidado, a não ser quando o casal coloca a criança em alguma escola com horário integral. A atuação masculina mostrou-se assim predominantemente complementar à da mulher, salvo naqueles casos, pouco comuns, em que o homem dispunha de horários de trabalho flexíveis e a mulher não. Quanto à apreciação pessoal sobre a divisão de tarefas, revelou-se uma discrepância nos discursos dos entrevistados. Os homens se referiram, como vimos, à sua própria participação nas tarefas como mais intensa e relevante do que aquela percebida pelas mulheres. Elas, por sua vez, se veem fazendo mais do que eles e algumas se ressentem dessa situação manifestando o desejo de dispor de mais tempo para si mesmas. Além da questão do efeito pavão e da necessidade de se mostrarem mais modernos, é possível que os homens estejam simplesmente seguindo o princípio do fenômeno de atribuição de causalidade, quando alocam responsabilidades distintas nas tarefas realizadas, dependendo do fato de serem ora atores, ora observadores (Rodrigues, Assmar, & Jablonski, 2009). No entanto, quando questionamos o que deveria ser modificado no outro, ou seja, o que o outro não faz, mas deveria fazer, surpreendeu-nos a resposta da maioria, que acreditava não haver necessidade de mudanças. Percebemos que, apesar de uma sobrecarga feminina, não há um conflito de opiniões, reforçando a idéia de que os antigos papéis de gênero ainda são os mais aceitos.

 

Comentários finais

Os resultados por nós encontrados são compatíveis com os apurados na maior parte das pesquisas sobre o mesmo tema, tanto no Brasil quanto no exterior. Araújo e Scalon (2005), por exemplo, já citadas por nós, ao apresentar os resultados de pesquisa realizada no Brasil, mas em segmento social diferente (classes populares), referem-se a percepções muito semelhantes com relação à divisão de tarefas: a exemplo do que ocorre na classe média, os homens são coadjuvantes nas responsabilidades domésticas. A pesquisa em questão identifica também uma falta de sintonia na percepção de homens e mulheres sobre a divisão de tarefas, com as mulheres percebendo-a como mais assimétrica e os homens mais equitativa, embora ambos demonstrem uma acentuada discrepância entre o que fazem e o que a(o) companheira(o) considera que realmente seja feito. Essas distinções também se apresentam em outras pesquisas, como as levadas a cabo por Kamo (2000) e por Davis e Greenstein (2004). Estes últimos, ao comparar as situações em países tão variados como EUA, Japão, Hungria e Rússia, entre outros, apuraram que os homens tendem a superestimar a sua contribuição nas tarefas domésticas, o que as mulheres não fazem, ao menos não com a mesma intensidade.

Embora tenha havido mudanças significativas no sentido de diminuir o gap entre homens e mulheres no que diz respeito às atividades domésticas (Amato et al., 2007; Robinson & Godbey, 1997; Sayer, 2005), permanece uma distância considerável entre o discurso e a prática, sendo certo que mesmo os homens cujas atitudes são positivas em relação à divisão de tarefas continuam adotando um comportamento não compatível com tais convicções. O que resulta curioso é a aceitação pelas mulheres de uma situação ainda flagrantemente iníqua, em consonância com o conceito de tradicionalização. Esse conceito é relativo ao fato de homens e mulheres, após se tornarem pais/mães, adotarem posturas mais tradicionais no que tange a seus papéis parentais e a suas divisões de trabalho doméstico, apesar de possíveis atitudes igualitárias anteriores. Essa tendência para a assunção de papéis mais estereotipados se daria independentemente do status profissional das mulheres, do nível educacional ou das atitudes de gênero e das divisões de trabalho preexistentes por parte dos casais. Assim, a divisão de trabalho doméstico costuma ser mais tradicional do que ambos os pais esperavam, daí o epíteto em questão (Brasileiro et al., 2002; Cowan & Cowan, 2000).

Em suma, o que verificamos é que há ainda um longo percurso a ser feito pelos casais no caminho da igualdade, algo que surpreendentemente não está sendo percebido como tão dificultoso ou conflitivo pelos próprios casais quanto nos parecia antes de levarmos a cabo a presente pesquisa.

 

Referências

Amato, P. R., Booth, A. Johnson, D. R., & Rogers, S. J. (2007). Alone together – How marriage in America is changing. Cambridge: Harvard University Press.

Araújo, C., & Scalon, C. (2005). Gênero, família e trabalho no Brasil. Rio de Janeiro: FGV.

Artis, J. E., & Pavalko, E. K. (2003). Explaining the decline in women's household labor: Individual change and cohort differences. Journal of Marriage and the Family, 65, 746-761.

Bardin, L. (1979). Análise de conteúdo. Lisboa: Martins Fontes.

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Endereço para correspondência
Bernardo Jablonski
Rua Marquês de São Vicente, 287/701 Gávea
22451-041, Rio de Janeiro, RJ – Brasil
E-mail: bjablonski@uol.com.br

Rebido 15/2/2009
1ª Reformolaçãoo 14/8/2009
Aprovado 30/8/2009

 

 

* Este trabalho é fruto de projeto de pesquisa financiado pelo CNPq e Faperj. Equipe composta por Viviane Richardson, Mariana Cotrim, Thais Graeff, Maria Elisa, Thays Assis (FAPERJ), Aline Zeque Moutinho (FAPERJ), Kessia da Rocha Mattos Coelho (FAPERJ), Carolina Passos Telles Ribeiro e Renata C. Cavour (PIBIC) (graduandos); Alberto Carneiro B. de Souza (mestrando); Adriana Nunan (doutorando).
** Doutor em Psicologia Social - Fundação Getúlio Vargas. Professor assistente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ – Brasil.

 

 

Anexo I